sábado, 6 de novembro de 2004

Nem sempre penso

em amor como barulho, multidão, olhos por toda parte. Acho que quando assim penso, penso em paixão. Esta que se alimenta de si mesma para se arrogar invencível.
Devia saber, a paixão, que, de bom, tem tão pouco.
Devia entender que é tão aparente, tão vazia de existência. Devia desistir de se alojar em uns e outros. Devia se cansar de somente ser tida no meio da embriaguez.
A paixão devia se envergonhar das suas tantas cores, devia se envergonhar de não poder empalidecer.
Devia se ver, se desmerecer. Devia não se impor na arte.
Muito menos se impor em tudo o mais que não é arte.
Inebriante, mas, antes de tudo, inebriada de si mesma, faz-se dizer pela boca de uns pobres coitados.
Narcísica, julga-se bela, entende trazer em si mesma a força da vida. Pensa que move a vida.
Engodo, mente para si mesma, para não admitir que quem a tem o faz por mal.
Por mal se suportar.
Seus servos pouco se suportam. Ignoram-se e se temem a si mesmos. E assim, nessa verdade toda frágil, ela faz a sua casa.
Na insistênca da ignorância: aqui a paixão faz sua casa.
Pobre dela, pobres de todos nós, ignorantes, que insistimos em viver com ela.

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