segunda-feira, 31 de julho de 2006

Minha pequena epifania

Parece que é verdade que a vida se perde em inutilidades. Por isso é tão difícil escolher um momento prá ser eterno. Dá medo de ser um momento de Sísifo. Medo de escolher errado e passar a eternidade carregando a pedra. Por isso não escolho o meu momento eterno.
Mas hoje veio um vento quente do mar, quando parei, quase esquecendo, prá pegar os cinco quilos de livros. Lembrei do cheiro meio de mofo dos livros meio velhos. Como Morangos Mofados. Incrível como Caio Fernando alterna coisas lindas e pobrezas, mas mesmo assim enlaça. Estranhamente- mas talvez como tantos outros- me sinto ligada a ele por um laço afetivo de quem nunca se viu, como se sentisse saudade do que eu não vivi.
E ele fala de pequenas epifanias. Uma taça de vinho e a imagem de um rosto amado por trás dela. A descarga elétrica dessa visão.
E aí a sua voz e jeito de falar, e eu ouvidos e o que não se pode dizer e quase se disse, mas acabou não dito.
E agora só a sua voz ecoando em fragmentos, me fazendo ouvir o barulho da chuva quente. O vento que soprou forte no meu rosto.
Como o nome do meu filho é lindo.
E eu me forçando a olhar prá mim mesma. Olhar no meu rosto como se tivesse uma lupa. Sou bonita? Fui, sei lá? O meu olho parado a trêscentímetros do espelho.
A essa hora os fragmentos já não mais são significantes.
Sua voz é só o timbre.
Nem riso, nem palavras, talvez só a busca pelo tom de ciúme prá forçar um sorriso antes de deitar.
Sorriso no rosto, guardo só o timbre. Só esse fragmento.
Sim, pensei em vc sexta passada, já na madrugada do sábado, talvez mesmo tenha sonhado, não sei bem.
Tudo em vc é lembrança, sonho, já confundo o que disse com o quis dizer e não disse.
Mas guardo tudo. Meio enevoado.
Uma pequena epifania. Sua voz na minha véspera de mais um ano novo em agosto.
O meu som da sua voz.
E agora o meu agradecimento. Prá quando um dia vc ler essas palavras.

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