quinta-feira, 21 de junho de 2007

Horinhas Delicadas

Mais um tabuleiro de palavras minhas, que, escritas, talvez pareçam menos barulhentas. Sempre fui tão transparente. Tantas vezes me senti nua.
E o que pode ter me levado a agir assim? A lógica vertical/horizontal explica de dois jeitos bem fáceis. Carência, o primeiro. Como é sempre duro para alguém admitir ter-se sentido assim. Tem até uma musiquinha do Cranberries que diz: “it is a lonely thing/ the animal instinct in me”. Coisa solitária o meu instinto animal. A outra explicação é mais suave. Empatia. Como se eu conhecesse vc, sem, de fato, conhecer.

Então, como eu fiz um pequeno relicário das coisas doces que vivenciei com vc, decidi ousar te contar quais foram. Na crença de que essas pequenas espontaneidades, e a forma como eu lidei com elas possam revelar mais de mim do que os fluxos em moto contínuo de minhas palavras angustiadas e narrativas atropeladas.

A primeira, um diálogo: vou entrar aqui só por sua causa e vc vai saindo? Então eu fico. Depois, o filme. E o jeito como foram tratadas as pessoas retratadas. A permeabilidade no olhar e a sensibilidade, aparentemente instintiva, de deixar que aquelas pessoas revelassem o que as comovia, o que as interessava, para, então, ver nascer o filme. Noves fora o “cabecismo” da expressão, é verdade que me comovi ao ver, posta em prática, na arte, a ética dialógica, tão rara, sempre.

E a festa. E resolvi entrar na piscina. Estava feliz, pensei que a água conservaria esse sentimento com mais força – por um pouco mais de tempo - do que o ar. Então choveu. A mesma água de tantos sonhos, ainda meio incompreendida, mas ainda assim tão atraente. A água que me redime... E a bênção de eu entrar na água e, logo em seguida, começar a chover. Estabeleci, em segredo, uma comunicação com o invisível e agradeci por tanta água, e tanta redenção, talvez. E lá esteva você , suavemente, nesse momento tão íntimo. Pensei em não deixar vc se aproximar, mas deixei. Então pensei que se houvesse um jeito leve de o amor se fazer presente, esse jeito seria no meio da água. Talvez um dia as pessoas ainda resolvam se casar na água, como se batizam.

E a casa. A luz que retive da sua casa é tênue. E achei tão linda a rosinha na varanda. Quando a vi pela primeira vez, ela não estava morta, estava maltratada pelo vento-sol-chuva, mas vivinha. E tão delicada. Ainda na sala, percebi que o vento, estranhamente, entrava curvo pela varanda. Silencioso e fazendo curvas. Esses ventos, tão raros, se me encontram feliz, parecem um carinho delicado. Se minha alma está por um fio, me dão um frio que eu me cubro mesmo o meu corpo muito quente. E seus livrinhos. Quintana, Ana César, tão diferentes entre si. E o poste na rua, que, de tardezinha, cria uma luz indireta no seu quarto. Casinha doce.

E vc, que eu não desvendo, que não quis se abrir, que disse tão pouco. Que ouve o que quer, que pode ouvir só o que quer. Que sorri em silêncio e me olha me despindo. Que enxugou o meu corpo molhado do seu suor. E nem precisava, já que aquele era meu corpo e então seu suor já era também meu. Quase não deixei, mas acabei deixando. E olhei tantas vezes vc sem olhar seu rosto, buscando, localizando, arrumando - talvez sendo também um pouco tola, é verdade – o ângulo do conto de Caio Fernando Abreu em que ela via parte do peito, parte do queixo moreno do homem que ela nunca veio a conhecer. É lindo esse conto. Tive, tantas outras vezes, vontade de desviar meu rosto do seu olhar. Talvez devesse ter feito mais vezes, mas me deixei olhar, enfim. E olhei, mas vi quase nada.

Não vinha sabendo lidar, até acabar escrevendo isto, com essa pequena caixa mental, esse tal relicário de pequenas coisinhas que amontoei na minha memória sem ter nenhum controle sobre sua escolha ou acumulação.

Mas achei belas essas cenas que descrevi. Li, no avião de volta de Lisboa, um livro que me explicou como reter a beleza. Já sabendo que ela é tão leve que chega a ser “insustentável”, ou impossível de ser retida. O nome do autor é Alain de Bottom. Ele diz – e outros, junto com ele – que não se prende a beleza nas fotos, nem em souvenirs, como uns fios de cabelo de quem se gosta. A beleza só se deixaria reter quando se escrevesse sobre ela, ou se a desenhasse. Acho que ele esqueceu de quem faz filme, mas, certamente, por um lapso. Então, na falta de um filme, retive assim aquelas horinhas delicadas. E resolvi deixar vc ver.

Nenhum comentário: